Aprenda com o seu dia-a-dia
Hoje ocorreu um fato interessante.
Estava voltando do trabalhando. Eram 7 horas da noite de uma sexta feira. O 464 estava como sempre: uma meia dúzia de gatos pingados, confortavelmente acomodados, alguns até tirando seu cochilo.
Havia pouco tempo desde que eu tinha entrado no ônibus. Quando estávamos chegando perto da Praça da Bandeira (pego o ônibus na Presidente Vargas, em frente à prefeitura) uma moça se levanta e aproxima-se do trocador. A distância, parecia à todos no ônibus, que a moça pedia informações sobre a localização de algum lugar.
O trocador, um senhor com traços nordestinos, largo bigode, com aproximadamente 45 anos, explicava pacientemente como chegar lá. Havia certa dificuldade na comunicação. Esse trocador certamente era uma pessoa de baixa formação, mas no final das contas parecia que a moça não teria muitos problemas para chegar ao seu destino.
Porém, enquanto o trocador tentava se fazer entendido, o motorista do ônibus teve que dar uma freada muito brusca. Nesse momento a moça foi jogada contra a roleta do ônibus. A rotação foi o suficiente para que a roleta, na sua volta ao ponto correto, contabilizasse mais uma passagem.
Ao mesmo tempo, um senhor que estava sentado na parte da frente do ônibus, antes da roleta, levantou-se. Acabou sendo lançado para frente também com a freada brusca. Porém, apoiado, não sofreu nenhuma conseqüência mais grave.
Mas o trocador ficou realmente preocupado, afinal, quem pagaria aquela passagem? Entre argumentações da moça e do trocador, o senhor agora em pé em frente à roleta, resolveu apoiar a moça e tentar argumentar com o trocador.
Esse senhor, aparentando seus 65 anos e, também tinha características que caracterizavam baixa formação.
Obviamente ninguém mais se arriscou a participar daquela confusão, pois os dois já estavam exaltados o suficiente.
A mulher, já preocupada em saltar, resolveu pagar e ir embora.
Os dois homens ofendiam-se cada vez mais até que o derradeiro “vamos resolver lá fora” foi dito.
Para sorte de todos, o ônibus chegou ao ponto e o senhor precisou saltar. Apesar do trocador ter pego sua bolsa como quem pega algum tipo de arma, nada mais sério aconteceu. O senhorainda deu a última cartada. Ao descer, contornou o ônibus e deu um soco no vidro na altura em que o trocador se sentada. Esse último esboçou uma atitude para responder, mas não o fez.
Alguns riam, como se não entendessem como duas pessoas podiam se agredir por algo tão banal. Outros já não agüentavam mais escutar os gritos e lamúrias. O trocador ainda ficou por uns bons 5 minutos resmungando, discutindo com ele mesmo, como se procurasse uma explicação para a sua atitude ou alguma forma de culpar seu já antigo oponente.
Foi nesse momento que toda a situação se tornou interessante para mim.
Notei, com menosprezo, o comportamento do trocador, consumido de raiva por toda aquela discussão. Minutos depois, ainda se enfurecia com o comportamento do senhor e incomodava a todos com isso.
Porém, acabei sendo interrompido pela minha empatia. Pelo meu velho costume em tentar entender o comportamento dos outros. Em tentar encontrar um argumento qualquer que mostre, de alguma forma, que eu não tenho nenhum direito de condená-lo. Afinal, acredito fortemente no valor da liberdade de pensamento e comportamento, respeitando o limite do próximo. Não quero, nem espero, que ninguém seja igual a ninguém, apenas que não façamos mal uns aos outros (seria sonho??).
Assim, finalmente fui capaz de interromper aquele meu comportamento que tanto detesto. Fiquei pensando em que situação eu reagiria daquela maneira. O que poderia acontecer comigo que me tiraria do sério, a ponto de perder o controle sobre meus pensamentos, sobre o que estava falando. Quando que eu gostaria de explodir...
Compreendi que qualquer um passa por isso. Qualquer pessoa, independente do seu grau de instrução, pode ser levada ao descontrole quando desafiada no ponto certo. Às vezes, nem precisa ser no ponto certo. Tantas coisas já estavam incomodando, que a última acaba sendo apenas a necessária para liberar aquele comportamento.
Enfim, em alguns poucos minutos descobri uma excelente forma de sofrer menos. A idéia, tantas vezes repetida, é “esquece, bola pra frente, não vale a pena...”. Mas foi preciso um instante de sanidade para poder me projetar em alguma outra situação e a tornar a idéia algo mais. Torná-la em atitude.
Ah, seu trocador, lembre-se que eu entendo seu comportamento e não deixarei de respeitar sua profissão por causa desse único evento. Mas lembre-se também que eu espero que você perceba que aquela não foi a forma correta de agir. Agora, deixa isso tudo pra lá, esquece e bola pra frente!
