24.1.07

De que vale a nossa história nesse blog?

Eu não me aprumo mesmo. Insisto em escrever textos questionadores e a começar escrevendo sobre algo que nada tem a ver com o tema. Dito isso, posso começar.
Estava eu, após a minha quarta aula de kung-fu (depois do meu retorno aos treinos), procurando por alguma droga semelhante ao gelol para meu ante-braço direito que estava em flagelos. Por sorte, lembrei que havia um Vick VapoRub (para quem não sabe, o que vale ouro no gelol é a cânfora, presente também no famoso descongestionante). Ele estava guardado na segunda gaveta de minha mesa de cabeceira, naqueles lugares típicos que jogamos coisas que achamos que vamos precisar um dia.
Eis que um objeto me chama a atenção. Foi o presente de uma ex-namorada que muito me fez sofrer. Pensei: o que raios isso ainda faz aqui? Fiel seguidor da tônica de se livrar daquilo que não quer se lembrar, tratei de pegar as poucas lembranças que ainda restavam e separá-las para encaminhar ao destino final de todas as coisas: o Aterro Sanitário de Gramacho ou então alguma recicladora (ou quem sabe até sofrer um processo de reintegração de posse e ser vendido na Uruguaiana, mas, nesse texto, não é o que importa apesar de ser uma grande lição).
Porém, havia um motivo maior para que aqueles objetos estivessem ali guardados. Era a gaveta das "lembranças e presentes de ex-namoradas, casos e amigas" (que fique claro que amigos não dão lembranças - o que pode nos levar a discutir a teoria da amizade entre homens e mulheres, mas não hoje). Aquilo estava ali esquecido havia uns dois anos (para quem interessar possa, já virou papel picado).
Mas não pensem que discorrerei sobre um tema fúnebre como este. Nessa mesma gaveta encontrei cartas, notas e bilhetes velhos... mas bota velhos nisso. Há textos que vão fazer 10 anos. E comecei a ler.
Caramba, que viagem (se eu fumasse maconha certamente teria visto algum valentão me encarando). Acho que nenhum psicólogo, padre ou webmaster descobriu esse tipo de "terapia". Cada um desses textos trouxe memórias perdidas sobre minha personalidade. Quem eu era, quem eu queria ser, o que eu passei e como cheguei até aqui. Não é uma biografia, é muito mais que isso.
A viagem não foi longa, mas foi o suficiente para me empolgar a voltar a escrever no blog. Por quê? Por que lendo alguns desses papéis eu vi o quanto é importante para uma pessoa saber a sua própria história. Afinal, o que é que você vai contar para os seus netinhos, hein?? Brincadeiras à parte, os poucos que eu li me chamaram muito a atenção.
Uns porque me lembraram da energia que eu transmitia. Alegre, confidente, consultor sentimental (já perceberam que quem dá mais palpite é quem menos se dá bem? Mas essa é outra teoria). Outras pelo meu romantismo infantil, imaturo... minha inexperiência em relacionamentos. E eu achando que não sabia escrever belos poemas...
Por que não escrevemos mais cartas? Cartões são pouco utilizados. Bilhetes então... puff... sumiram. Maldito e-mail, post it, MSN, scrap. Como era boa a sensação de esperar a resposta ao bilhete entregue sorrateiramente por baixo da carteira. E a adrenalina de escrever em cima do caderno, confundindo a professora do curso de inglês, buscando a palavra perfeita: aquela que instigasse e que não fosse direta. Aquele amor platônico oculto por pequenos pedaços de papel enrolados, escritos até a borda.
Não sei... talvez não seja culpa mesmo das ferramentas eletrônicas. Talvez amor e paixão amadureçam e sejam diferentes quando chegamos aos vinte. Será que não vemos mais graça nessa inocência? Pode ser... não sei se sinto falta disso. Só sei que me fez bem saber que fui assim um dia. E também me faz bem saber como sou hoje. Um sorriso infantil, daqueles impossíveis de esconder e que contagiam qualquer adulto, poluiu meu rosto amadurecido, com barba e pouco cabelo.
Quero dedicar mais tempo a escrita dos meus sentimentos e pensamentos (ainda com o medo dos riscos que a exposição escrita destes trazem para os relacionamentos). Não somente pelo bem que me faz hoje quando trabalho, mas pelo sorriso que não perceberei dar ao ler novamente cada postagem (o que me leva a crer que a internet não veio só para o mal).
Minha gaveta está aberta a todos que quiserem conhecer (e quem sabe reconhecer-se) um pouco sobre essas minhas fases. Obviamente só falo isso porque o grupo de quem lê é bem seleto (e reduzido ainda mais porque há meses não escrevo).

5 Comments:

At 13:23, Blogger H.Costa said...

Amigo, por vezes me sinto meio assim. Parei para me observar hoje e parece que ficou algo pra trás, uma identidade. Parece falarmos de um ser diferente. Mas ao retornar há um passado não muito longe, fico extremamente feliz em saber do que eu era capaz, e isso só faz com que eu ganhe gás para lutar por novas coisas e ainda, com um novo sorriso no rosto. Ok que por vezes temos calos que nos lembram que não é tão simples, mas que estamos realmente em crescimento é fato!

Grande Abraço.

 
At 13:21, Anonymous Anônimo said...

Quero acesso à gaveta !! Afinal de contas, faz parte da profissão ...

Vez em quando eu visito minhas caixinhas de recuerdos, seja pra sentir aquele calorzinho no coração, seja pra gargalhar de algumas merdas que fiz na vida ...

Fato é que as caixinhas (que era apenas uma, pequenina, virou uma grande, e agora são quatro bigs, duas delas ex-portadoras de botas de cano longo) continuam a existir (e a crescer). E não quero despejar no Aterro Sanitário nem picar, não. São lembranças de momentos que, bem ou mal, ajudaram a formar quem sou hoje, como você bem disse.

É tipo a teoria de "pq se estuda História". No fim das contas, nossas cartas e recordações tem o mesmo sentido das cartas e recordações de Dom Pedro I. Ainda que nosso público seja muito menor. Mas não menos importante.

Amo você, beijo na namô linda !

 
At 16:02, Blogger Fillipe said...

outro dia eu passei por isso vendo umas fotos antigas... é engraçado o poder avassalador da nostalgia...

 
At 22:45, Anonymous Anônimo said...

É, amigo.... eu leio. :p
bjinhos

 
At 23:22, Blogger Edu said...

Cara!
Tambem passei por isso recentemente!
Tive momentos muito bons e que de fato mereciam ser lembrados, e acho isso muito importante.
Confesso que em relação a nostalgia eu aprendi a ser um pouco diferente... Enfim... Que venha o futuro!

Abraços!

 

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