5.5.06

O tamanho de alguém

Certa vez conheci um casal.
Ambos tinham estatura média, talvez um pouco abaixo. Ambos educados, com curso superior e com uma vida digna, primeiramente na vida privada, posteriormente na vida pública.
Ele já era calvo quando o conheci e tinha uns poucos cabelos grisalhos; um olhar cinza, apesar dos olhos azuis; um rosto cansado, apesar da energia dos movimentos; uma postura altiva, de um militar reformado; um jeito duro de falar; elogios eram peças de raras de museu no seu vocabulário.
Ela era uma pessoa tímida, mas muito viva. Com o sentimento a flor da pele em que, no menor sinal de perigo, se escondia. Mas que, ao mesmo tempo, era capaz de abraçar e acolher num dom natural de proteção. Ela era bela e jovial, coisa que o tempo insistia em mentir achando que tinha o direito de dizer o contrário. Era moderna.
Ambos viviam juntos e criaram assim uma família. Ambos tentavam, juntos, fazer o que melhor lhe cabiam na profissão de pais, que escola nenhuma ensina. Quando um empurrava, o outro estendia a mão. Quando um valorizava o trabalho, o outro valorizava a família.
Ele era de uma família do interior. Ela também.
Ele, do alto de seu pedestal de conhecimento, traduzia em frases a moral da sociedade. O que falou sempre foi correto, mas não era belo. Nunca houve essa pretensão. A obrigação era maior que o amor.
Ela, na humildade que a insegurança lhe impos, sempre ficava fascinada pelas diversas opções que poderiam existir num pensamento. Difícil seria ter coragem para tomar partido, dar direção sem antes considerar as hipóteses.
Esse casal era apenas enquanto casal. Hoje são pai e mãe. Lendo assim não é fácil traduzir o que significam para mim. A perfeição alcançada no que vida lhes permitiu me dar, é para mim o maior sinal de amor que existe. De ambos. Cada contribuição para o meu crescimento.
Queria chegar ao final do texto sabendo como posso medir o tamanho real de alguém. Não consigo. E parti do pressuposto de que pai e mãe seriam o limite. Realmente são. Mas estão distantes. Não digo que é o amor que sinto por eles (ou que sentem por mim) que os fazem ser grandes. Não digo que é a força ou a fraqueza no uso das palavras. Não sei o que é, mas sei que são grandes. Enormes. E por melhor que um dia eu venha a ser, ainda assim, olharei com os olhos de quem foi pequeno, muito pequeno, mesmo adulto, e contou com a palmada e o ninar no colo para continuar no caminho. Como eu quero um dia ser tão grande quanto eles...



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Obs. 1: Em tempo... estou considerando um post de volta a inativa. Meus posts tinham muito mais comentários quando estava ausente. Ou então, partir para textos sofridos. Parece que a dor tem mais IBOPE que o sabor.
Obs. 2: estou às turras com meu coração e minha razão. Minha razão, que tanto fez pela minha felicidade nos últimos meses, foi superada hoje pelo meu coração. Esse velho, rabugento, cabeça-dura, que insiste no bem ao próximo antes do seu próprio. Que não preserva valores, histórias, que pensa que todo mundo na vida é igual, ou deveria ser igual a ele. Volte a mim a racionalidade, enquanto ainda é tempo. Nota mental: evitar leitura de posts de tristeza...

7 Comments:

At 01:46, Blogger Edu said...

Cara...
Eu poderia dizer algo a respeito do seu texto. Mas este texto é algo que esta escrito com uma pessoalidade tão imensa, que nunca caberá um comentário que consiga agrupar uma opinião sobre o assunto abordado.
O texto é como um quadro, ao qual se olha e entende-se ao pintor e reconhece-se o talento...

 
At 20:29, Blogger Fillipe said...

concordo com o Edu. Esse é daqueles textos onde o melhor que eu posso fazer é aquele olhar de "eu te entendo, meu amigo... Eu te entendo", e nada do que eu diga vai significar mais do que apenas esse olhar.

É interessante ver como apesar dessa união recente, é cada vez mais nítido como cada um de nós está criando um estilo próprio de escrita. Esse pra mim foi seu melhor post.

E agora pra não ficar sem falar sobre isso: PQP O DUDA RIMOU!! Adorei o poema!!

 
At 20:48, Anonymous Anônimo said...

Depois do comentário do "Edu", não me sinto a altura de fazer nenhum comentário equivalente...
Ao menos ao contrario dos grandes mestre da pintura vc não precisou morrer p/ ser reconhecido como um grande talento !!! Bjs

 
At 09:29, Blogger Fábio said...

Faço minha as palavras do Duda, no que diz respeito a minha mãe honorária.

 
At 09:35, Blogger Fábio said...

Posts tristes certamente dão mais ibope (vou botar em minúsculas pois acho que a palavra já perdeu o sentido exclusivo da sigla que a originou). Afinal, o que move o ser humano é o conflito. Como bem conversamos um dia desses, é preciso haver uma certa quantidade de estresse para que nos movamos. Nem demais, nem de menos, senão o bicho pega.

Ou pelo menos é o que eu acho.

Abraços!

 
At 09:40, Anonymous Anônimo said...

Nenhum bebê vem com bula, manual de instruções ou coisa parecida; também não exite curso pra ser mãe. Mas mesmo assim, no escuro, contando apenas com minha senisibilidade e amor desmedido e incondicional, sei que acertei e realmente dei um presente pro mundo. Mas do que o presnte que dei pro mundo, ganhei o melhor presente do mundo. EU AMO MUITO MEU FILHO!!!!!!!

 
At 10:38, Anonymous Anônimo said...

Já não sou muito boa na digitação,emocionada erro mais ainda: "Mas do que o presnte" = Mais do que o presente...

 

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