Um dia daqueles...
(Ping!) Faz a gota da goteira. Insistente, eterna, paciente. (Ping!) Nos primeiros segundos de atenção eu estranho: onde estará? (Ping!) Está lá fora, no ar-condicionado, um batuque seco (que ironia), repetitivo. (Ping!) Já se passaram mais alguns segundos e noto que ela (Ping!) não desistirá.
Encerrando e começando, em intervalos (Ping!) curtos de emissão sonora, mas que duram muito mais em silêncio na nossa mente até (Ping!) a próxima gota. Já não estou indiferente a ela. (Ping!) Penso em alguma solução, mas todas já foram tentadas da última (Ping!) vez que a percebi. Avisar ao porteiro, pedir ao síndico (Ping!), subir na janela e por um calhamaço de folhas (Ping!) sobre o meu ar-condicionado. Quem sabe um pano (Ping!)... que trabalheira. Bom, daqui a pouco acostumo....(Ping!)
Preciso entregar esse relatório hoje. Só falta calcular mais esses dois (Ping!) clientes. Vou botar uma música. (Ping!) Está difícil concentrar-se a essa hora da (Ping!) noite. Cansado, pensando na cama quente, na paz do lar, no que fazer durante o fim de semana... Outros problemas vêm à mente. Um amigo diz alô no computador. De repente me sinto sozinho, carente...Estranho... algo diferente no ar.
(PRRRING!)
Ah! A porra da goteira. Alguém poderia ir lá dar um jeito nesse vizinho? (Ping!) Já não sei se é o vizinho ou a goteira em si. A última seqüência de 4 pingos após um silêncio (Ping!) encantador sugere que há algo de implicante nessa situação. (Ping!) Acalme-se. Essa goteira não é nada. Na realidade ela está aí há meses, todos os dias (Ping!), o dia inteiro. Você já sorriu, já brigou, já pensou em pedir demissão (Ping!), mas ela sempre esteve lá. Escutou seus lamentos.
(Ping!) Te proporcionou momentos de prazer quando algum visitante percebeu (Ping!) que ela estava lá também. Um sorriso sai do canto da boca do visitante (Ping!). Eu respondo com outro sorriso e a frase: “você se acostuma”. (Ping!) Transmito um ar superior e mostro como (Ping!) sou paciente, concentrado. (Ping!) O visitante acredita que é possível.
Um cliente. (Ping!) Só mais um cálculo. Um arquivo com 5 planilhas, cada uma com 560 linhas e 42 colunas. Dois terços das células estão preenchidas com fórmulas. A faculdade serviu para alguma coisa. Os estágios também. Sinto-me bem em conseguir fazer esse relatório. Mas agora eu quero a minha casa. Fechar.
“Deseja salvar as alterações feitas a “Pasta1”? Não.
NÃO!?
ESPERA!!
PÁRA! NÃO!! VOLTA!!!!
IDIOTA!! NÃÃÃÃÃO!!!
(Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!)
EU VOU ARRANCAR ESSA (Ping!) M*%¨$ DESSE AR-CONDICIONADO E ENFIAR NO (Ping!) C& DO FILHO DA (Ping!) P$%# QUE NÃO PODE (Ping!) COLOCAR UMA (Ping!) P*&¨# DE UMA MANGUEIRA!!
(Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!)
GOTEIRA DESGRAÇADA! VAI RIR DA TUA MÃE!
...
...
...
(PRRRING!)
Chega... vou pra casa....
