11.5.06

Um dia daqueles...

(Ping!) Faz a gota da goteira. Insistente, eterna, paciente. (Ping!) Nos primeiros segundos de atenção eu estranho: onde estará? (Ping!) Está lá fora, no ar-condicionado, um batuque seco (que ironia), repetitivo. (Ping!) Já se passaram mais alguns segundos e noto que ela (Ping!) não desistirá.

Encerrando e começando, em intervalos (Ping!) curtos de emissão sonora, mas que duram muito mais em silêncio na nossa mente até (Ping!) a próxima gota. Já não estou indiferente a ela. (Ping!) Penso em alguma solução, mas todas já foram tentadas da última (Ping!) vez que a percebi. Avisar ao porteiro, pedir ao síndico (Ping!), subir na janela e por um calhamaço de folhas (Ping!) sobre o meu ar-condicionado. Quem sabe um pano (Ping!)... que trabalheira. Bom, daqui a pouco acostumo....
(Ping!)

Preciso entregar esse relatório hoje. Só falta calcular mais esses dois (Ping!) clientes. Vou botar uma música. (Ping!) Está difícil concentrar-se a essa hora da (Ping!) noite. Cansado, pensando na cama quente, na paz do lar, no que fazer durante o fim de semana... Outros problemas vêm à mente. Um amigo diz alô no computador. De repente me sinto sozinho, carente...Estranho... algo diferente no ar.

(PRRRING!)

Ah! A porra da goteira. Alguém poderia ir lá dar um jeito nesse vizinho? (Ping!) Já não sei se é o vizinho ou a goteira em si. A última seqüência de 4 pingos após um silêncio (Ping!) encantador sugere que há algo de implicante nessa situação. (Ping!) Acalme-se. Essa goteira não é nada. Na realidade ela está aí há meses, todos os dias (Ping!), o dia inteiro. Você já sorriu, já brigou, já pensou em pedir demissão (Ping!), mas ela sempre esteve lá. Escutou seus lamentos.

(Ping!) Te proporcionou momentos de prazer quando algum visitante percebeu (Ping!) que ela estava lá também. Um sorriso sai do canto da boca do visitante (Ping!). Eu respondo com outro sorriso e a frase: “você se acostuma”. (Ping!) Transmito um ar superior e mostro como (Ping!) sou paciente, concentrado. (Ping!) O visitante acredita que é possível.

Um cliente. (Ping!) Só mais um cálculo. Um arquivo com 5 planilhas, cada uma com 560 linhas e 42 colunas. Dois terços das células estão preenchidas com fórmulas. A faculdade serviu para alguma coisa. Os estágios também. Sinto-me bem em conseguir fazer esse relatório. Mas agora eu quero a minha casa. Fechar.
“Deseja salvar as alterações feitas a “Pasta1”? Não.
NÃO!?
ESPERA!!
PÁRA! NÃO!! VOLTA!!!!
IDIOTA!! NÃÃÃÃÃO!!!

(Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!)

EU VOU ARRANCAR ESSA (Ping!) M*%¨$ DESSE AR-CONDICIONADO E ENFIAR NO (Ping!) C& DO FILHO DA (Ping!) P$%# QUE NÃO PODE (Ping!) COLOCAR UMA (Ping!) P*&¨# DE UMA MANGUEIRA!!

(Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!) (Ping!)

GOTEIRA DESGRAÇADA! VAI RIR DA TUA MÃE!
...
...
...
(PRRRING!)

Chega... vou pra casa....

5.5.06

O tamanho de alguém

Certa vez conheci um casal.
Ambos tinham estatura média, talvez um pouco abaixo. Ambos educados, com curso superior e com uma vida digna, primeiramente na vida privada, posteriormente na vida pública.
Ele já era calvo quando o conheci e tinha uns poucos cabelos grisalhos; um olhar cinza, apesar dos olhos azuis; um rosto cansado, apesar da energia dos movimentos; uma postura altiva, de um militar reformado; um jeito duro de falar; elogios eram peças de raras de museu no seu vocabulário.
Ela era uma pessoa tímida, mas muito viva. Com o sentimento a flor da pele em que, no menor sinal de perigo, se escondia. Mas que, ao mesmo tempo, era capaz de abraçar e acolher num dom natural de proteção. Ela era bela e jovial, coisa que o tempo insistia em mentir achando que tinha o direito de dizer o contrário. Era moderna.
Ambos viviam juntos e criaram assim uma família. Ambos tentavam, juntos, fazer o que melhor lhe cabiam na profissão de pais, que escola nenhuma ensina. Quando um empurrava, o outro estendia a mão. Quando um valorizava o trabalho, o outro valorizava a família.
Ele era de uma família do interior. Ela também.
Ele, do alto de seu pedestal de conhecimento, traduzia em frases a moral da sociedade. O que falou sempre foi correto, mas não era belo. Nunca houve essa pretensão. A obrigação era maior que o amor.
Ela, na humildade que a insegurança lhe impos, sempre ficava fascinada pelas diversas opções que poderiam existir num pensamento. Difícil seria ter coragem para tomar partido, dar direção sem antes considerar as hipóteses.
Esse casal era apenas enquanto casal. Hoje são pai e mãe. Lendo assim não é fácil traduzir o que significam para mim. A perfeição alcançada no que vida lhes permitiu me dar, é para mim o maior sinal de amor que existe. De ambos. Cada contribuição para o meu crescimento.
Queria chegar ao final do texto sabendo como posso medir o tamanho real de alguém. Não consigo. E parti do pressuposto de que pai e mãe seriam o limite. Realmente são. Mas estão distantes. Não digo que é o amor que sinto por eles (ou que sentem por mim) que os fazem ser grandes. Não digo que é a força ou a fraqueza no uso das palavras. Não sei o que é, mas sei que são grandes. Enormes. E por melhor que um dia eu venha a ser, ainda assim, olharei com os olhos de quem foi pequeno, muito pequeno, mesmo adulto, e contou com a palmada e o ninar no colo para continuar no caminho. Como eu quero um dia ser tão grande quanto eles...



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Obs. 1: Em tempo... estou considerando um post de volta a inativa. Meus posts tinham muito mais comentários quando estava ausente. Ou então, partir para textos sofridos. Parece que a dor tem mais IBOPE que o sabor.
Obs. 2: estou às turras com meu coração e minha razão. Minha razão, que tanto fez pela minha felicidade nos últimos meses, foi superada hoje pelo meu coração. Esse velho, rabugento, cabeça-dura, que insiste no bem ao próximo antes do seu próprio. Que não preserva valores, histórias, que pensa que todo mundo na vida é igual, ou deveria ser igual a ele. Volte a mim a racionalidade, enquanto ainda é tempo. Nota mental: evitar leitura de posts de tristeza...